quarta-feira, 27 de abril de 2016

Processo criativo - Post convidado: Olinda Gil

O processo criativo da escrita nem sempre é algo feliz, apesar de dar satisfação. Muitas das vezes há ansiedade por escrever, aflição por passar uma mensagem, gritar. Isso acontece quando as ideias aparecem "de explosão", a chamada inspiração: que nem sempre é tão inspirada quanto isso. Porque dessa explosão pode até nem sair nenhum texto bom.
Por outro lado há momentos muito relaxantes. São aqueles textos que são muito pensados. Em que a ideia surge aos poucos, e relfectimos sobre ela durante diversos momentos. Este processo pode tanto durar meia dúzia de dias como anos. Mas não pensem que lá porque possa durar anos isso seja negativo. Afinal, a boa ideia é aquela que não nos sai da memória. A vantagem de pensarmos muito sobre o que escrever, é a facilidade com que depois se escreve. Estes textos são sempre os meus melhores textos.
Para escrever, seja de rompante ou com toda a calma do mundo é imperativo que esteja num ambiente sossegado. Se for em casa, na minha secretária, é essencial que esteja arrumada. Já desisti de escrever por ter a secretária desarrumada, e ir arrumá-la naquele momento afasta-me do processo criativo. Também gosto de ter a secretária perto de uma janela, de preferência com uma vista soberba, e com muita luz natural. Necessito de estar confortável. Tenho dificuldade em escrever com o calor e com o frio. E silêncio.
Contudo, a minha casa não é o único sítio onde posso escrever. Quando vivia em Lisboa escrevia muito nos cafés, mesmo sem estar em silêncio. O barulho de fundo era um "white noise" que conseguia ignorar. O mesmo pode acontecer num parque, numa esplanada. Uma pequena secretária num quarto de hotel também pode servir se estiver de viagem.
O que não consigo é escrever se estiver a ser constantemente interrompida.
Mas um texto não fica terminado à primeira vez. Há duas coisas que para mim são importantes: deixar passar tempo e revisões, muitas revisões. Deixar passar dois ou três meses sobre um texto que escrevemos pode ser tempo suficiente para conseguirmos olhar para o texto com outros olhos, conseguirmo-nos distanciar. Assim, vai ser mais fácil rever, e reescrever se for preciso. As emoções que tenho para com o texto estão diminuídas, a nossa perspectivaa é outra, e é possível alterar o texto sem sentimentos de culpa.
Às vezes são necessárias várias revisões até que o texto esteja terminado. Outras vezes não é preciso tanto. É algo que se sente: quando conseguimos estar bem com aquele resultado talvez seja a altura de pararmos o processo criativo. Uns textos exigirão mais que outros. Nós também não poderemos estar sempre com a mesma exigência.



Olinda P. Gil é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Ensino do Português e das Línguas Clássicas. Tem também uma pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos.
Iniciou a sua prática de escrita no "DnJovem", suplemento do "Diário de Notícias".
Colaborou em diversas colectâneas e publicações, e foi 3º prémio do concurso literário "Lisboa à Letra" em 2004, na categoria de prosa.
Editou, a título independente, em 2013 “Contos Breves”, e, pela Coolbooks, chancela da Porto Editora, “Sudoeste” e “Sobreviventes”, em 2014 e 2015.
Escreve no blog www.olindapgil.blogspot.com

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