domingo, 13 de novembro de 2011

A Princesa, o Sapo e o Ego

Todas as noites brilha o espelho quando ela passa por ele e todas as noites brilham as estrelas que olha através da janela, mas mais do que isso não aconteceu nunca. Todas as noites se deita desejando o abraço daquele princepe, o encantado, mas em nenhuma noite sentiu o aperto aconchegante desses braços, o melhor que já teve foi apenas um sonho.
Acorda de manhã e pensa que por mais uma noite tudo esteve igual, e por mais um dia tudo igual permanecerá, a felicidade é um sonho distante de paradeiro desconhecido, que se move para longe do seu alcance e se esconde atrás da neblina do seu ego, da sua busca e da vivência do não ter.
As nuvens cerram-se e desaparece o sol, desaparece o brilho do seu olhar, que há muito ficou mais baço.

Ela beijaria agora mesmo um sapo, se, soubesse qual dos sapos é o correcto, qual deles se transformará garantidamente no seu princepe. Mas aí se esconde a metáfora do ego que se transporta e vive nela. Haveria de ter que beijar muitos sapos, até encontrar um princepe, ou até aprender a gostar de sapos! Mas uma princesa não faria tal.
Mais uma noite e mais uma lua nova que sorri em direcção da sua janela, mais uma noite negro-azulada que passa e mais uma noite perdida na solidão de um espaço que é demasiado, numa vida que  oferece muito do que menos é preciso e mais um olhar baço-enublado para o espelho, apenas para conferir que é realmente merecido esse príncepe. Porque não aparece?
Beijaria três sapos, mas não seria capaz. Cada dia estará mais próxima de beijar mais dois ou trés e cada dia o ego se dissolve um pouco mais. Cada dia a felicidade encontra menos neblina e viaja para mais perto.
Mais um dia, este de sol, beijaria dez sapos, um deles tinha que ser o seu princepe, tinha que ser!
A neblina deixa-se conquistar pelo brilho do sol e o espelho reflecte uma luz que não conhece igual.
A felicidade viaja para cá.
Beija um sapo.
Um sapo que não é um princepe.
O sapo não foge para longe, a princesa não beija mais sapos, gosta deste. Leva-o consigo e nessa noite podem ver os dois o brilho do espelho quando passam por ele, o brilho das estrelas que observam da janela, o espaço imenso daquele quarto. É impossível que um sapo abrace uma princesa, mas a princesa pode abraçar o sapo.
Nasce o sol. Ele salta da cama encandeado com o brilho do Sol, do espelho, passa por ele, e hoje, o sapo é um princepe.

Sem comentários:

Enviar um comentário